Hoje não a vi de manhã. A cadeira estava vazia, no mesmo canto obscuro onde sempre está. Ela não estava lá. Passa o dia sentada no mesmo sitio. É o seu trabalho. Não sei o que pensa, que dramas a atormentam ou simplesmente se fecha os olhos e sonha que está noutro lugar. Nunca a vi a ler um livro, folhear uma revista, ou mesmo falar com alguém. Senta-se apenas e espera que o tempo passe. Tornou-se parte do recanto, apenas o percebemos quando a cadeira vazia nos alerta os sentidos. Não sei se tem familia ou filhos. Intorreguei-me se estaria doente ou tivesse sido colocada em outro serviço. Conformei-me com a ideia de que nunca o iria saber.
Mais tarde vi-a. Estava sentada no sitio do costume e desta vez tentei perceber o que fazia. Tinha um pequeno papel na mão onde rabiscava alguns desenhos e algo que se parecia com uma assinatura. Reparei que ouvia musica. Ficou lá, sentada o resto do dia. É o seu trabalho.
:)
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quarta-feira, 22 de junho de 2011
segunda-feira, 25 de abril de 2011
E porque hoje é 25 de Abril...
Na verdade, não tenho uma particular visão poética relativamente a revolução dos cravos e ao período que se viveu. No entanto, trata-se de um dia de mudança, um dia em que uma consciência coletiva decidiu que estava na altura de mudar algo. Não que o resultado tenha sido particularmente feliz, mas diga-se, em Portugal vivia-se muito mal naqueles tempos.
O dia marca também alguns acontecimentos na minha vida. Foi, por exemplo, o dia em que comecei a tirar fotografias. Lembro-me de ter ido a avenida da Liberdade e de ter fotografado um miúdo em cima de um Chaimite com um cravo na mão, K1000 e lente 50mm. Devia ter na altura ai uns 20 anitos e ainda alimentava algum interesse por fotografar pessoas. Algo que deixei de fazer de há uns anos para cá. Digamos que mudei de ideias. Não sei o que terá sido feito do miúdo. Penso que fará parte da dita geração enrascada.
O 25 de Abril é para mim, portanto ,um dia de mudança, um dia em que se decide fazer algo de outra forma. Um dia em que se desafia o “sistema”, acima de tudo, porque não se gosta do “sistema”.
Não acredito que as coisas tenham mudado muito. De facto não acredito que as coisas tenham mudado assim tanto desde de há uns bons anos para cá. O macaco, que bate nos outros todos para chegar ao galho mais alto da árvore, foi destituído pelos seus, quando meia dúzia de macaquinhos mais espertos perceberam era fácil convencer os outros macaquinhos que o melhor macaquinho para estar no galho mais alto, era o macaquinho deles. Depois perceberam que trocar o macaquinho no ramo mais alto também não era difícil. È só arranjar outro macaquinho menos esperto e convencer os outros macaquinhos que, afinal, este é que é bom e o outro já não presta. Quanto mais burro melhor, desde que pareça decidido e sirva os interesses dos macaquinhos espertos. O resto da macacada, que se lixe, desde que façam o que os macaquinhos espertos querem.
Porque hoje é 25 de Abril e para que consigamos viver no meio desta macacada toda. :)
O dia marca também alguns acontecimentos na minha vida. Foi, por exemplo, o dia em que comecei a tirar fotografias. Lembro-me de ter ido a avenida da Liberdade e de ter fotografado um miúdo em cima de um Chaimite com um cravo na mão, K1000 e lente 50mm. Devia ter na altura ai uns 20 anitos e ainda alimentava algum interesse por fotografar pessoas. Algo que deixei de fazer de há uns anos para cá. Digamos que mudei de ideias. Não sei o que terá sido feito do miúdo. Penso que fará parte da dita geração enrascada.
O 25 de Abril é para mim, portanto ,um dia de mudança, um dia em que se decide fazer algo de outra forma. Um dia em que se desafia o “sistema”, acima de tudo, porque não se gosta do “sistema”.
Não acredito que as coisas tenham mudado muito. De facto não acredito que as coisas tenham mudado assim tanto desde de há uns bons anos para cá. O macaco, que bate nos outros todos para chegar ao galho mais alto da árvore, foi destituído pelos seus, quando meia dúzia de macaquinhos mais espertos perceberam era fácil convencer os outros macaquinhos que o melhor macaquinho para estar no galho mais alto, era o macaquinho deles. Depois perceberam que trocar o macaquinho no ramo mais alto também não era difícil. È só arranjar outro macaquinho menos esperto e convencer os outros macaquinhos que, afinal, este é que é bom e o outro já não presta. Quanto mais burro melhor, desde que pareça decidido e sirva os interesses dos macaquinhos espertos. O resto da macacada, que se lixe, desde que façam o que os macaquinhos espertos querem.
Porque hoje é 25 de Abril e para que consigamos viver no meio desta macacada toda. :)
terça-feira, 29 de março de 2011
O paquistanês perdido
Hoje bebi uma cerveja com um jovem paquistanês. Sentou-se ao pé de mim num bar de aeroporto e pediu uma lata de cerveja. Ao principio fiquei com a ideia de que se estava a preparar para beber uma jola as minhas custas, mas depois percebi rapidamente que não. Vestia-se como a maioria dos paquistaneses : Bone na cabeça, aquela farpela que se assemelha a um pijama de tamanho 4 números acima ao qual as bainhas foram arranjadas e sandalocha generosamente arejada.
Bebia uma lata de cerveja. O que não é muito comum e pagava sem regatear o preço nem complicar muito, o que também não é comum. Chegou a pedir um maço de tabaco num bar de aeroporto o que me deixou embasbacado, uma vez que custa o triplo do que vendido na loja da esquina. Fiquei curioso mas não muito. Acabou por me perguntar de onde era e fez aquele ar parvo de quem não sabia sequer que existia um pais chamado Portugal mas não se atreve a dizê-lo. No Paquistão, uma vez que não temos selecção de críquete ninguém sabe quem é o Cristiano Ronaldo, o que faz de Portugal um pais desconhecido.
Vim a saber que tinha sido deportado e não poderia mais regressar ao pais até ao fim dos seus dias. Parece que o patrocinador se tinha enganado e vendeu o mesmo patrocínio a 7 pessoas diferentes, com o mesmo nome ou algo parecido. Talvez tenham seguido a simples lógica de que lhes parecem ser todos iguais e logo devem ter também o mesmo nome. Não consegui perceber mais da historia, aparte do fulano não se querer ir embora e apesar dos seus incessantes pedidos foi parar ao aeroporto com um bilhete de ida.
Deixei-o lá a beber uma lata de cerveja e desejei-lhe sinceramente boa sorte.
Estes são os escravos actuais. Pelo menos os mais Óbvios, os outros acho que somos nós todos, mas isso é outra historia.
Vêm na esperança de amealhar uns dinheiritos para eles e para a família e pagam a um patrocinador a sua entrada num mundo melhor. Ficam sem passaporte e imediatamente com uma divida a pagar que resulta melhor se forem do sexo feminino e estiverem dispostos a prostituir-se. “É o preço que tenho de pagar” disse-me uma vez uma miúda com quem meti conversa num bar.
Alguns suicidam-se com vergonha quando percebem que não vão conseguir enviar dinheiro para casa e não sabem quando voltam. Outros, como este, são substituídos de imediato devido a erros administrativos. É mais fácil substituir a peça do que perceber o que falhou.
Deixam a família, mulher e filhos e muitos passam anos a fio sem a verem. Alguns acabam por ir de férias e ficar por lá. Outros aguentam a pancada e alguns até conseguem trazer a família. Ninguém sabe quantos ficam pelo caminho e quantos reconstroem a sua vida num pais estranho. Não há estatísticas. Aliás, isso não interessa. A maquina não para e alimenta-se dos sonhos das pessoas.
Cabe a nós não a alimentarmos. :)
Banning Eyre: There's one song on this album where you did not translate the lyrics. That's "Chet Boghassa."
Abdallah: Chet Boghassa means "the girls of Boghassa." Boghassa is a village in the desert. I wrote that song. It was during the rebellion. I tried to remember the women of Boghassa and to say that we would liberate that village, because at that time, the Malian troops were in Boghassa. "We will take it back." The song talks about that.
Bebia uma lata de cerveja. O que não é muito comum e pagava sem regatear o preço nem complicar muito, o que também não é comum. Chegou a pedir um maço de tabaco num bar de aeroporto o que me deixou embasbacado, uma vez que custa o triplo do que vendido na loja da esquina. Fiquei curioso mas não muito. Acabou por me perguntar de onde era e fez aquele ar parvo de quem não sabia sequer que existia um pais chamado Portugal mas não se atreve a dizê-lo. No Paquistão, uma vez que não temos selecção de críquete ninguém sabe quem é o Cristiano Ronaldo, o que faz de Portugal um pais desconhecido.
Vim a saber que tinha sido deportado e não poderia mais regressar ao pais até ao fim dos seus dias. Parece que o patrocinador se tinha enganado e vendeu o mesmo patrocínio a 7 pessoas diferentes, com o mesmo nome ou algo parecido. Talvez tenham seguido a simples lógica de que lhes parecem ser todos iguais e logo devem ter também o mesmo nome. Não consegui perceber mais da historia, aparte do fulano não se querer ir embora e apesar dos seus incessantes pedidos foi parar ao aeroporto com um bilhete de ida.
Deixei-o lá a beber uma lata de cerveja e desejei-lhe sinceramente boa sorte.
Estes são os escravos actuais. Pelo menos os mais Óbvios, os outros acho que somos nós todos, mas isso é outra historia.
Vêm na esperança de amealhar uns dinheiritos para eles e para a família e pagam a um patrocinador a sua entrada num mundo melhor. Ficam sem passaporte e imediatamente com uma divida a pagar que resulta melhor se forem do sexo feminino e estiverem dispostos a prostituir-se. “É o preço que tenho de pagar” disse-me uma vez uma miúda com quem meti conversa num bar.
Alguns suicidam-se com vergonha quando percebem que não vão conseguir enviar dinheiro para casa e não sabem quando voltam. Outros, como este, são substituídos de imediato devido a erros administrativos. É mais fácil substituir a peça do que perceber o que falhou.
Deixam a família, mulher e filhos e muitos passam anos a fio sem a verem. Alguns acabam por ir de férias e ficar por lá. Outros aguentam a pancada e alguns até conseguem trazer a família. Ninguém sabe quantos ficam pelo caminho e quantos reconstroem a sua vida num pais estranho. Não há estatísticas. Aliás, isso não interessa. A maquina não para e alimenta-se dos sonhos das pessoas.
Cabe a nós não a alimentarmos. :)
Banning Eyre: There's one song on this album where you did not translate the lyrics. That's "Chet Boghassa."
Abdallah: Chet Boghassa means "the girls of Boghassa." Boghassa is a village in the desert. I wrote that song. It was during the rebellion. I tried to remember the women of Boghassa and to say that we would liberate that village, because at that time, the Malian troops were in Boghassa. "We will take it back." The song talks about that.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Aborigenas
Encontramo-los á beira das estradas, de caminhos ou encostados a um canto qualquer nas ruas movimentadas. Olham-nos com um ar estranho, como quem espera acordar de um sonho. Por vezes quando os olhares se cruzam sorriem e erguem a mão lentamente como cumprimento. Mantêm-se afastados como se presenciassem algo que não compreendem ou em que não querem participar. Ignoramo-los, incomodados. São como fantasmas errando por uma terra que já foi sua, a meio caminho entre o passado e o presente. Continuamos, atarefados, com as nossas lógicas mesquinhas, raramente parando para observar e recusando o contacto de quem nos observa.
No fundo temos medo de perceber que aquilo que nos parece lógico não faz na verdade nenhum sentido.
:)
No fundo temos medo de perceber que aquilo que nos parece lógico não faz na verdade nenhum sentido.
:)
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